terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A tia

 Um episódio gore em minha família



A primeira vez em que algo do tipo aconteceu foi alguns dias depois do enterro da minha tia-avó Belinda. Eu ainda era bem criança, e minha mãe havia me levado ao cemitério para auxiliá-la nos cuidados com o túmulo.
Quando chegamos às proximidades da sepultura da tia, minha mãe atendeu o celular – naquela época, eles eram aparelhos enormes, parecidos com tijolos, você se lembra? – e, como ela sempre gostou muito de falar ao telefone, ficou conversando animadamente, enquanto eu me incumbi de acender as velas e depositar os cravos vermelhos no jazigo.
Ao tempo em que me afastei para que pudesse verificar o resultado de meus cuidados caprichosos, ouvi um barulho vindo da pequena capela que se erguia sobre a última morada da tia. Uma vez atenta, pude ver muito bem, já que as portas da capelinha eram de vidro: a tia se levantou do caixão, e, alcançando as portas, abriu-as e saiu para o mundo dos vivos, sem esforço algum.
Eu corri, desesperada, para trás da saia da minha mãe. Eu puxava sua saia e lhe dizia:
 – Mãe! A tia se levantou! Acho que alguma coisa está muito errada por aqui! Acho que a tia não está se sentindo bem!
Mas, a despeito do meu pavor, minha mãe ria ao telefone, desvencilhando-se de mim e dando as costas para a cena sobrenatural que acontecia a poucos metros de nós.
Neste momento, dei-me conta: eu estava só, e havia a tia. Ensaiei uma aproximação. Dois ou três passos vacilantes em sua direção. A tia parou de olhar para as flores ao seu lado e fixou o olhar em mim. No entanto, não havia expressão alguma em seu rosto; a tia não estava feliz em me ver.
Na verdade, por mais que ela não fosse capaz de demonstrar seu espanto, eu consegui perceber, lendo seus olhos: a tia estava aterrorizada por estar viva.
Então, eu estava em um dilema: apesar de meu temor e estranhamento, eu não podia deixá-la sozinha, imóvel no meio do cemitério. Embora morta, tratava-se de um familiar, e era nosso dever fazer algo. Além disso, passou-me rapidamente pela cabeça que “hoje em dia as coisas são assim, mudam muito rápido”, e que aquele poderia ser o primeiro dia de muitos em que teríamos que aprender a lidar com essas pequenas diferenças entre nós e aqueles que já estão mortos. Talvez no futuro houvesse uma lei que obrigasse as famílias a recolher seus mortos-vivos. Talvez no futuro. O que eu podia fazer, naquele momento, e diante da simples inexistência de opções plausíveis, era manter a serenidade e agir com a máxima naturalidade possível. Eu não tinha a mínima idéia, e nem poderia ter, de qual seria o lugar de uma morta-viva. Mas haveria de existir algum lugar para a tia. Minha mãe não faria nada, ainda estava ao telefone, rindo e concordando. Então, peguei a mão gelada da tia e a arrastei para casa.
A tia ocupou o quarto de hóspedes, como ela antes fizera tantas vezes. É claro que alguns cuidados especiais eram necessários: eu não podia, por exemplo, deixar o portão aberto, porque a tia tinha uma mania incompreensível de andar em linha reta sem parar ou se cansar. Ela andava até que eu percebesse sua ausência, e então eu corria para alcançá-la, invariavelmente trazendo-a de volta para casa.
Quando eu ia brincar na pracinha, levava a tia. As pessoas de idade também precisam sair e se distrair um pouco – era o que eu ouvia o tempo todo. Eu conseguia fazer com que ela se sentasse em um dos bancos da praça, e assim ela ficava, deixando-me a impressão de que sequer mexia as pálpebras que se enrugavam, ressequidas, sobre seus olhos. Acho que a tia não gostava dos pombos que ciscavam a seus pés na praça.
Ademais, em geral a tia não dava muito trabalho. Não comia nada, não defecava ou urinava. Minha mãe surpreendentemente estava se comportando muito bem, agindo de maneira absolutamente normal na presença de nossa ilustre visitante.
Por falar nisso, toda vez que tínhamos visitas em casa, eu me perguntava se a tia não estaria cheirando mal. Seria uma vergonha para nós, e principalmente para a pobrezinha. Você bem sabe como as pessoas de idade são cheias de caprichos, orgulhosas mesmo. Eu não sentia cheiro algum, porque estava resfriada fazia tempo, com o nariz entupido desde muito antes de a tia voltar.
A aparência da tia, por sua vez, era preocupante. Eu fazia o que podia, mas estava ficando cada vez mais difícil deixá-la apresentável. E nós não podíamos deixar de receber as visitas ou de ir à praça, para um pouco de ar fresco e exercícios. E continuamos nessa rotina, que me parecia, àquela época, congelada, em suas poucas atividades.
E assim fomos levando essa situação tão delicada, com uma habilidade admirável, até que um dia a vizinha foi levar a Santinha em casa e esqueceu o portão entreaberto.
A tia saiu, foi andando. Eu não percebi, porque estava brincando no meu quarto. Quando fui ver, a tia estava quase sumindo de vista. Respirei fundo, preparando-me para correr, e muito, quando a minha mãe me puxou pela camiseta.
– Isso lá é hora de sair para a rua, menina?! Já está quase escuro, é perigoso, volte já para dentro!
– Pô, mãe, a tia...
 – Mas será que você só sabe falar nisso? E quantas vezes eu já não falei que é feio falar palavrão?!
Eu ia dizer que “pô” não era palavrão. E então o telefone tocou. Antes de correr para atendê-lo, ela trancou o portão. Guardou a chave do cadeado no bolso do avental.  E eu não sei para onde a tia foi.

7 comentários:

Anônimo disse...

Hahaha! Delícia de post pra época do Natal! :D

Bênçãos às tias e tios e avós e avôs que andam por aí... por aqui... por lá! =P

;*

Unknown disse...

Adoro o fantástico, e o fantástico lhe caiu tão bem! :)

Anônimo disse...

Realmente.. realismo fantástico é minha paixão, e esse texto é simplesmente perfeito! =)

Me remeteu imediatamente a cem anos de solidão...

Anônimo disse...

aliás.. realmente, o real é tão fantástico e a fantasia é tão real!


mistérios! hehe

Bartô disse...

esse conto é muito bom, é uma das minhas histórias favoritas!
nunca tinha pensado o quão aterrorizante essa experiência podia ser aos olhos da morta-viva!

JAS disse...

Nunca tinha pensado em uma experiência como essa. Excelente conto ! Eu precisava ouvir uma boa história para relaxar um pouco. Beijo !

Unknown disse...

Tenho pena das almas que vivem a penar, por não saber praticar o desapego. Vivemos purgando por entre mundos e sub-mundos, anos após anos, na insistente busca por uma luz no fim do túnel, que muitas vezes nunca virá.

Concordo com os outros coments, seu conto é simplesmente fantástico. Parabéns! Beijos. ;)

E aguardo sua visita no meu...