quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Post de Natal

Hoje seria o aniversário de meu querido avô, já falecido. Há dois dias tive uma conversa muito abrangente com minha avó, em que ela me falou do vô, da Igreja de Santo Antônio, de suas Bodas de Prata, de sua prima Zainha e de como é terrível pegar piolhos no ônibus. A conversa me lembrou este curta, do japonês Kunio Katô, que traz uma bela metáfora da vida e do destino. Então resolvi antecipar o post de Natal, com os presentinhos de final de ano. Meu presente de Natal para os amigos que frequentam o blog é "La Maison en petits cubes", mostrando o que será de nós amanhã (demora um pouquinho para carregar):





Em comemoração ao aniversário do meu avô, tão próximo do Natal, Bing Crosby e David Bowie cantam "Little Drummer Boy/Peace on Earth":



E para quem ainda não teve a chance de ler, aqui, no buraco de minhoca, um texto dos bons escrito pela Manu, em seu excelente tumblr:



That's all, folks! Feliz Natal ou um abençoado Litha (como as chuvas já vem para comprovar) para aqueles que comemoram e que não se cansam de comemorar. Talvez eu publique mais alguma coisa até o Natal, mas meus votos já estão feitos.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A tia

 Um episódio gore em minha família



A primeira vez em que algo do tipo aconteceu foi alguns dias depois do enterro da minha tia-avó Belinda. Eu ainda era bem criança, e minha mãe havia me levado ao cemitério para auxiliá-la nos cuidados com o túmulo.
Quando chegamos às proximidades da sepultura da tia, minha mãe atendeu o celular – naquela época, eles eram aparelhos enormes, parecidos com tijolos, você se lembra? – e, como ela sempre gostou muito de falar ao telefone, ficou conversando animadamente, enquanto eu me incumbi de acender as velas e depositar os cravos vermelhos no jazigo.
Ao tempo em que me afastei para que pudesse verificar o resultado de meus cuidados caprichosos, ouvi um barulho vindo da pequena capela que se erguia sobre a última morada da tia. Uma vez atenta, pude ver muito bem, já que as portas da capelinha eram de vidro: a tia se levantou do caixão, e, alcançando as portas, abriu-as e saiu para o mundo dos vivos, sem esforço algum.
Eu corri, desesperada, para trás da saia da minha mãe. Eu puxava sua saia e lhe dizia:
 – Mãe! A tia se levantou! Acho que alguma coisa está muito errada por aqui! Acho que a tia não está se sentindo bem!
Mas, a despeito do meu pavor, minha mãe ria ao telefone, desvencilhando-se de mim e dando as costas para a cena sobrenatural que acontecia a poucos metros de nós.
Neste momento, dei-me conta: eu estava só, e havia a tia. Ensaiei uma aproximação. Dois ou três passos vacilantes em sua direção. A tia parou de olhar para as flores ao seu lado e fixou o olhar em mim. No entanto, não havia expressão alguma em seu rosto; a tia não estava feliz em me ver.
Na verdade, por mais que ela não fosse capaz de demonstrar seu espanto, eu consegui perceber, lendo seus olhos: a tia estava aterrorizada por estar viva.
Então, eu estava em um dilema: apesar de meu temor e estranhamento, eu não podia deixá-la sozinha, imóvel no meio do cemitério. Embora morta, tratava-se de um familiar, e era nosso dever fazer algo. Além disso, passou-me rapidamente pela cabeça que “hoje em dia as coisas são assim, mudam muito rápido”, e que aquele poderia ser o primeiro dia de muitos em que teríamos que aprender a lidar com essas pequenas diferenças entre nós e aqueles que já estão mortos. Talvez no futuro houvesse uma lei que obrigasse as famílias a recolher seus mortos-vivos. Talvez no futuro. O que eu podia fazer, naquele momento, e diante da simples inexistência de opções plausíveis, era manter a serenidade e agir com a máxima naturalidade possível. Eu não tinha a mínima idéia, e nem poderia ter, de qual seria o lugar de uma morta-viva. Mas haveria de existir algum lugar para a tia. Minha mãe não faria nada, ainda estava ao telefone, rindo e concordando. Então, peguei a mão gelada da tia e a arrastei para casa.
A tia ocupou o quarto de hóspedes, como ela antes fizera tantas vezes. É claro que alguns cuidados especiais eram necessários: eu não podia, por exemplo, deixar o portão aberto, porque a tia tinha uma mania incompreensível de andar em linha reta sem parar ou se cansar. Ela andava até que eu percebesse sua ausência, e então eu corria para alcançá-la, invariavelmente trazendo-a de volta para casa.
Quando eu ia brincar na pracinha, levava a tia. As pessoas de idade também precisam sair e se distrair um pouco – era o que eu ouvia o tempo todo. Eu conseguia fazer com que ela se sentasse em um dos bancos da praça, e assim ela ficava, deixando-me a impressão de que sequer mexia as pálpebras que se enrugavam, ressequidas, sobre seus olhos. Acho que a tia não gostava dos pombos que ciscavam a seus pés na praça.
Ademais, em geral a tia não dava muito trabalho. Não comia nada, não defecava ou urinava. Minha mãe surpreendentemente estava se comportando muito bem, agindo de maneira absolutamente normal na presença de nossa ilustre visitante.
Por falar nisso, toda vez que tínhamos visitas em casa, eu me perguntava se a tia não estaria cheirando mal. Seria uma vergonha para nós, e principalmente para a pobrezinha. Você bem sabe como as pessoas de idade são cheias de caprichos, orgulhosas mesmo. Eu não sentia cheiro algum, porque estava resfriada fazia tempo, com o nariz entupido desde muito antes de a tia voltar.
A aparência da tia, por sua vez, era preocupante. Eu fazia o que podia, mas estava ficando cada vez mais difícil deixá-la apresentável. E nós não podíamos deixar de receber as visitas ou de ir à praça, para um pouco de ar fresco e exercícios. E continuamos nessa rotina, que me parecia, àquela época, congelada, em suas poucas atividades.
E assim fomos levando essa situação tão delicada, com uma habilidade admirável, até que um dia a vizinha foi levar a Santinha em casa e esqueceu o portão entreaberto.
A tia saiu, foi andando. Eu não percebi, porque estava brincando no meu quarto. Quando fui ver, a tia estava quase sumindo de vista. Respirei fundo, preparando-me para correr, e muito, quando a minha mãe me puxou pela camiseta.
– Isso lá é hora de sair para a rua, menina?! Já está quase escuro, é perigoso, volte já para dentro!
– Pô, mãe, a tia...
 – Mas será que você só sabe falar nisso? E quantas vezes eu já não falei que é feio falar palavrão?!
Eu ia dizer que “pô” não era palavrão. E então o telefone tocou. Antes de correr para atendê-lo, ela trancou o portão. Guardou a chave do cadeado no bolso do avental.  E eu não sei para onde a tia foi.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Bobagem de hoje


É uma bobagem,mas eu me divirto com coisas assim. É só clicar na imagem e ver o conteúdo circulado em vermelho: Alcancei o tweet 666! Isso mesmo, para rir da piada da Thays (ótima, por sinal), lancei mão do satânico artifício.
*Brincadeirinha!




quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Feliz Mundo Novo




Feliz Mundo Novo. 
Esse é o slogan na vitrine. 
- Eu queria ser feliz e otimista, como uma publicitária - eu disse, primeiro para mim mesma e depois para Raul.
-Publicitários não acreditam em seus próprios slogans - refletiu Raul em resposta.
- Então serei infeliz?
- Se você for uma consumidora, poderá acreditar nos slogans e ser feliz.
Sabe, Raul, eu acho que você é um publicitário disfarçado.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Marina Morena Marina



sobre a  remodelação tecnológica a que se submetem as mulheres contemporâneas


Marina, Morena, Marina você se pintou.  Afinou o nariz, ergueu as maçãs do rosto, alisou os cabelos, tingiu-os de louro, colocou silicone nos seios... 

Fez drenagem linfática, Marina, você tirou as rugas ao redor dos olhos. Preenchimento de lábios, lipoaspiração e agora esse "ombré hair"! Que coisa é essa, Marina?

Tá feia não, acho que não tem jeito de você ficar feia. Mas eu não te reconheço mais, Marina. Passo por você na rua e passo direto, só te percebendo, às vezes, pelo contexto. E as maçãs do rosto, tão saltadas, te deixaram com esta cara de malvada...entre a máscara do pânico e o grito de Edvard Munch. Fora o medo irracional que tenho, não tem problema nenhum, não é mesmo?



sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Não sou boa.


Eu não sou boa. Sou só uma torturadora profissional. Está no meu contrato, saca? Eu não sou boa. Não sou boa o suficiente. Não sou boa o suficiente para você. Mas eu tenho uma profissão. Uma profissão que tem um manual. Um manual que eu sigo direitinho. Ademais, eu sou criativa, em minha profissão. Busco sempre as soluções mais práticas e mais eficazes. É assim que eu sou. Eu só sei torturar. Mas você não sabe de nada disso. Mudando de assunto, mas nem tanto, veja só: o rapaz sentado logo à frente está flertando comigo. Um jovem que mal pode saber que ele, ele próprio, é a única razão para eu estar aqui. Estou aqui para torturá-lo, para sorver a alma dele em um cálice de cristal. Dramático, não? Confesso que tenho um fraco por jogos de taças e                           espumantes finos.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Teratologia

Onde vivem os monstros.








Na revista beleléu mais próxima de você.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O chapéu



Por mais que eu feche as pálpebras com força, a visão é sempre a mesma: o jardim com a grama meticulosamente aparada. Eu estou sentada à mesa, com um chapéu sobre a cabeça e um canapé exalando frescor em uma das mãos. Involuntariamente, as pontas de meus lábios se voltam para baixo, sob o batom discreto. Já percebi que não há alimento algum que sustente um ser humano no evento,  e ainda não afundei meus saltos no gramado. Minha mãe se aproxima da mesa, com um sorriso que me parece forçado. "Ele não vai mais voltar", sussurro. A nobre senhora assente, sorri novamente e se afasta. Meu desconforto é só meu, e só eu consigo percebê-lo. 
Desisto do canapé, e suavemente o deixo repousando sobre a mesa. A crítica vem dizendo que chapéus são coisinhas vaporosas e tolas. Nada lhes é sagrado, e esta é a verdade. Plebeus que tem necessidade de manifestar sua preciosa opinião política em cada comentário que fazem. O que temem os senhores afinal? Que a América Latina se inspire em nós, convertendo seus países em monarquias? E de onde desenterrarão a aristocracia, esquecida como está nos baús de família? Malditos republicanos neoliberais de direita.
Fecho os olhos brevemente e um princípio de sonho me faz ver minha própria imagem, envergando os trajes típicos de nossas terras anteriormente bárbaras. Mas meus cabelos não mais formarão cachos como ainda o fazem em meus sonhos. Maldita moda castradora. Malditos republicanos neoliberais de direita. Forro, ou melhor, mando forrar a casinha do Lulu com seus jornais e periódicos, com suas revistas coloridas. Sim, dão-se ao trabalho de produzi-las em cores, enquanto eu mesma só me informo pela internet.
Hoje o sol está muito forte; gostaria de recolher meu sangue azul em casa. Sorrio para os convidados que se aproximam.



terça-feira, 16 de novembro de 2010

Fico

se é para o bem de todos
e felicidade geral da nação
diga ao povo que fico
até alguém me levar para casa




Porque não só eu, como muita gente ao meu redor anda às voltas com a mesma questão: onde é que eu fico agora?


buraco de minhoca

domingo, 14 de novembro de 2010

Stacy

Assisti três filmes ontem: "Daens - Um grito de justiça", "Stacy" e "Polícia, Adjetivo". Todos bons, dentro de seus propósitos. Mas ontem algo realmente me comoveu, e não foi o heroísmo exacerbado do histórico "Daens" e nem o tocante, divertido e deveras surpreendente "Policícia, Adjetivo". Foi o curto filme que o Andye, da Zombilly colocou para passar no Festival Meganime!


Foto do filme "Stacy"
"Stacy" é um filme japonês de zumbis. O filme é de de 2001, dirigido por Naoyuki Tomomatsu, e seu enredo é baseado em um romance de Kenji Otsuki. É bem trash, aliás. Mas, não importa o que a crítica especializada pense, eu adorei o filme.
As zumbis amorosas e letais de Stacy são cativantes. As histórias de amor que atravessam o filme carregam no sentimentalismo, ao melhor estilo japonês. Os efeitos toscos são delirantes, e um bálsamo para os olhos. Em suma: o filme reúne elementos da cultura pop que o Japão exporta para o mundo todo - desde seus romances delicados até seu terror tão peculiar, neste caso gore até o último fio de cabelo liso. 
Os detalhes são divertidíssimos: existe a Romero Repeat Kill Squad, solução do governo para o extermínio das mortas-vivas (Romero é um ótimo nome, não?), e uma motoserra portátil para se encaixar na mão direita (e ...matar zumbis!) chamada “Blues Campbell’s Right Hand”, a solução da iniciativa privada, um sucesso de vendas pela TV, para que as pessoas possam, elas mesmas, matar seus zumbis, em uma referência ao filme "The Evil Dead" (Uma noite alucinante/ A morte do Demônio), de Sam Raimi, em que Ash, personagem interpretado por Bruce Campbell troca a mão por uma motosserra. Há ainda a Drew Illegal Repeat Kill Troops (inspirada na Drew Barrymore, segundo suas integrantes) que mata zumbis clandestinamente, totalmente contra a lei. Muito bons, ainda, o conceito de "Felicidade diante da morte" repetido ao longo do filme, e a personagem Aiko (o nome significa "a eternidade das palavras"), interpretada pela estreante Natsuki Kato.
O filme é lindo, com um argumento meio bobo, sem sentido, mas de derreter corações. E, afinal, quem não gosta de ver adolescentes de 15 a 17 anos vestidas como colegiais sendo picotadas?
Coisa de gente insana, com certeza...!   




  

  

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Livro da Tribo



Olha, gente, saiu o Livro da Tribo 2011. Já achei, no dia 22 de março e no dia 08 de abril, duas poesias lindas do meu pai. Para aqueles que apreciam a leveza e tem inspiração.
Essa é a capa da minha...


buraco de minhoca

sábado, 6 de novembro de 2010

Desconforto



Si hay gobierno, soy contra. Já experimentou digitar esta frase no google? Chovem críticas mordazes. Por vezes, o discurso se envereda por uma crítica generalizada ao anarquismo, sem qualquer contextualização, ignorando os vínculos históricos, sem se apartar faceta alguma para análise. Engraçado, o anarquismo ainda choca. Quando se vai proceder à exposição de qualquer idéia anarquista, o discurso já é rotulado e desqualificado de chofre. Aí eu percebo certo desconforto mesmo com os princípios democráticos, e com todas as opiniões políticas, econômicas, sociais e artísticas que convivem dentro desse sistema. Existe uma tendência totalitária de desprezo ao divergente que não se enquadra aos ideais democráticos. Quanto ao anarquismo, em geral pouco se busca saber a respeito, mesmo inseridos como estamos na “sociedade do conhecimento”. Não se leva em conta a importância da crítica ao Estado e ao estado das coisas, nem tampouco as idéias anarquistas que foram muito bem assimiladas pela sociedade atual, como o cooperativismo. Enfim, a postura anarquista deveria ser levada em conta, ao menos, para os mais temerosos, a título de reflexão.  Vivemos em um momento em que é fácil constatar algumas situações de superestatização, e a sociedade pouco se questiona a respeito. Será um medo ancestral ou um medo infligido às pessoas pouco a pouco, de maneira inconsciente? Eu sei que tanto a discussão teórica quanto a busca por soluções viáveis para melhorar o que já está posto perdem, e muito, quando se adota uma postura intolerante, ou quando a ignorância se faz prevalecer.


Manifestação anarcofeminista na Argentina

A contestação à autoridade estatal abre as veias poéticas de São Paulo.
Foto retirada do site da Revista Piauí.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Para um João




Algumas histórias são especialmente comoventes. Esta é uma homenagem a João Ribeiro dos Santos, falecido em 12.12.2005. 


Técnica: rabisco sobre sulfite (nenhuma).

domingo, 24 de outubro de 2010

Dístico


pequenos terremotos
o impacto dos seus saltos


***
Pedido atendido! 

domingo, 17 de outubro de 2010

Poema de hoje


Que todo ego
se torne id
Que todo superego
consiga ser herói
e me salve
da mágoa que carrego
por ter feito castelos 
de areia e de lego

                          Daiana Geremias

***


sábado, 16 de outubro de 2010

Cria dor

Cria dor

por entre lilazes fugazes
retreme a retreta
senos senis
mofinas mofetas
pterodáctilos, pteridófitos!
sarcásticos sarcófagos
riem-se nas rieiras
e eu clamo ao deus dos sabicheus
por que não entendo coisa alguma
eu também sou rei
de um país de papel
eu também sou deus
de homens de papel
mas que mafarricos está acontecendo aqui?
será a arte apenas um artefato?
às vezes a pergunta ecoa
à toa
em cônsono
com sono
todos respondemos que sim.


quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Um show de rock é um show de rock, o SWU é só o SWU.

Então tá, vamos falar do SWU. 


Minha primeira conversa sobre o SWU foi mais ou menos assim.


Raul e eu decidimos ir ao SWU. Com tantas bandas e um preço tão salgado, tivemos que nos concentrar para escolher um dos dias; como o objetivo maior do Raul era o Yo La Tengo, e o meu, os Pixies, e ambos tocariam no último dia, num pacote que também incluía o Queens of the Stone Age, esse foi o dia escolhido.
Fomos de ônibus, em uma excursão em que a maior parte (ou ao menos a parte mais saliente) era uma galerinha metaleira muito jovial, irreverente e maneirinha, leia-se adolescentes insuportáveis, chegamos lá pouco depois do meio-dia, e, incrivelmente, encontramos um amigo de Maringá que hoje mora em Campinas, o Renato. Devidamente inseridos no grupo dele, aguardamos um par de horas para entrar no evento.
Nesse momento, o público foi muito educado; ninguém forçou a entrada apesar da demora injustificável para colocar as pessoas para dentro. Perdemos só a apresentação do Ilo Ferreira.
O evento em si era meio boçal. Aquela conversa marqueteira de sustentabilidade não foi posta em prática nem nas coisas mais simples. O que se via era um desperdício de recursos, por exmplo, tiravam a coca-cola da garrafa e colocavam em um copo plástico, usando duas embalagens ao invés de uma; os alimentos não eram saudáveis, nem produzidos de maneira sustentável, sendo que a organização do evento perdeu a chance de experimentar, inovar mesmo. Havia muito lixo por toda parte.
Também a entrada estava muito cara. Não se podia entrar com comida ou bebidas, e tudo estava muito caro lá dentro. O evento ficou muito elitizado, cheio de uma gente rica e entediada, e isso tira o clima de rock'n roll. Os poucos malucos jogados perto do palco das bandas independentes eram uma exceção. Foi um festival asséptico e capitalizado, onde tudo parecia ser de plástico, com uma estrutura brutal, lojas de camisetas a 70 reais, e uma molecadinha sendo carregada bêbada antes do fim dos shows.
Assistimos à boa apresentação de Alan Johanes, e depois seguimos os boatos até o Mombojó, que tocava no palco das bandas independentes. A voz do povo não mente: o show foi divertido, surpreendente e original! A banda velha de guerra despencada de Recife é demais. 
Depois, fomos a um dos palcos principais aguardar pelo Yo La Tengo. O show foi marcado pelas manifestações mal-educadas dos adolescentes que esperavam o Sevenfolds, que tocaria só duas horas depois (eles estavam "guardando lugar" desde o início da tarde). Eles não deixaram os fãs da banda se aproximarem e ficaram vaiando-na e mostrando o dedo do meio, bem sapequinhas. Quando o Yo La Tengo anunciou a última música, os rebeldezinhos descobriram, estupefatos, que ela não tinha fim. Os adolescentes vaiaram e gritaram, mas a banda prosseguia. Ira Kaplan estourou uma guitarra, levando seu público ao delírio. Não foi preciso interromper a música, levaram outra para ele imediatamente. Ganhando a platéia no cansaço (os malandrinhos ficaram quietos, percebendo que a gritaria só fazia a música se esticar), o Yo La Tengo se despediu deixando a seus correligionários a imagem da guitarra detonada do Ira e um sorriso no rosto. 
Eu estava injuriada com o evento como um todo, mas então algo mudou: ao final do show do Incubus, Raul e eu avançamos até esbarrar...na grade! E o melhor! Olhamos para o lado e vimos todos os nossos amigos (que haviam se perdido) na grade também! Nosso reencontro foi na primeira fila do show dos Pixies!!! Chegamos ao melhor lugar possível devido a nossa falta de dinheiro (os premiuns estavam na nossa frente)! 
Assistimos ao show do Queens of the Stone Age (que foi no palco ao lado) pela tangente, de longe, mas conseguimos vê-los bem, sentir a energia deles, e foi ótimo, eles foram incríveis!
E por fim...os Pixies! Da grade a vista era muito boa, o show foi o máximo, a Kim Deal muito simpática, gargalhando no final. Terminaram o show sem cantar "Where is My Mind?", e, no BIS, prometeram uma última música, e mandaram "Planet of Sound". Em seguida, eles emendaram "Where is my mind?" (nessa parte, eu chorei) e fecharam com "Gigantic". 
Eu achava que continuaria no festival, mas depois dos Pixies, não quis ver mais nada. Raul e eu fomos comer, despedimo-nos dos nossos amigos queridos e fomos para o ônibus, onde eu dormi com "Monkey Gone to Heaven" na cabeça.
Depois de um show do Queens of the Stone Age e outro dos Pixies, meu coração ficou mais leve que minhas penas. Funciona mais ou menos assim: os egípcios acreditavam que, quando alguém morre, o Deus Anúbis coloca o coração sobre o prato de uma balança, deixando uma pena no outro prato. A pessoa só poderia entrar no paraíso se o coração fosse o mais leve. 
Eu lamento muito pelos que se frustraram com o festival, buscando ecologia, política ou Woodstock, mas eu saí de alma lavada: esses capitalistas sabem nos fisgar pelo coração. Eu vi os Pixies, e não me importa mais nada. 
Para sair alegre, é só ter foco no rock!


Buraco de minhoca (Kim Deal no clipe "Little Trouble Girl", do Sonic Youth)

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Poema de hoje


Cidade

Perder o tino 
arrancar a pele urbana
das paredes da cozinha
com as unhas sujas de mato

Ricola de Paula

***

Abri minha agenda semana passada e me deparei com isto: um poema muito terno. A ilustração é da Daniela Acerbi.
Enfim, a cruel quarta-feira se foi. E toda quinta traz intrinsicamente um motivo de comemoração.
Grandioso dia de Júpiter, sempre um bom dia para soprar as teias de aranha (apenas figurativamente, deixe os bichinhos em paz!).

 Uma boa quinta-feira.



quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Eleições - Serviço de Utilidade Pública.

Este ano, meu irmão decidiu compreender as reais implicações em votar nulo. O que chamou a atenção dele foi um informativo publicado na página do TSE, de onde tirei ons enxertos que transcrevo agora:

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PERGUNTAS MAIS FREQÜENTES SOBRE O VOTO NULO
1. VOTAR NULO CAUSA ANULAÇÃO DE ELEIÇÃO?
Não. O Tribunal Superior Eleitoral decidiu que os votos nulos por manifestação apolítica dos eleitores (protesto) não acarretam a anulação de eleição.

5. QUAL A DIFERENÇA ENTRE VOTAR NULO E VOTAR EM BRANCO?
O voto em branco ocorre quando o eleitor escolhe a opção “Branco” e confirma na urna eletrônica. Já o voto nulo é aquele que não corresponde a qualquer numeração de partido político ou candidato regularmente inscrito. Tanto o voto nulo como o em branco não são considerados na soma dos votos válidos.
Mas saiba que é importante que você participe e vote, para melhorar a sua cidade.


Disponível em: http://www.tse.gov.br/eje/html/info_eleicoes3.html
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Então, pessoal, a nulidade a que se refere o art. 224 do Código Eleitoral, aquele que diz que Se a nulidade atingir a mais de metade dos votos do país nas eleições presidenciais, do Estado nas eleições federais e estaduais ou do município nas eleições municipais, julgar-se-ão prejudicadas as demais votações e o Tribunal marcará dia para nova eleição dentro do prazo de 20 (vinte) a 40 (quarenta) dias, trata apenas dos votos para  candidato que futuramente for condenado por compra de votos, abuso do poder econômico ou por interferência do poder político ou de autoridade, além daqueles obtidos por fraude ou coação. 


É isso aí moçada, o TSE cortou nosso barato! Boicotou nossa forma de boicotar os candidatos escolhidos pelos partidos políticos. É brincadeira, mas eu mesma acreditei por muito tempo nesta lenda dos votos nulos. Ainda assim, é uma opção muito melhor que vários votos válidos por aí.


Aproveitando...cuidado com as propostas de candidatos a cargos LEGISLATIVOS! Grande parte dos que tem chance de se eleger não tem conhecimento algum sobre o ordenamento jurídico do país, tendo apenas o interesse de manter as coisas como estão e os bolsos cheios, de preferência.


Tem candidato prometendo a redução da maioridade penal...e se esquece de informar a população de que não se sabe, ainda, se isto é possível ou se a inimputabilidade dos adolescentes com menos de 18 anos é uma cláusula pétrea da Constituição, que não admite modificação. Ninguém se lembra também que existem punições no ECA, as quais não são aplicadas, às vezes, por falta de aparato estatal, ou pior: são aplicadas sem critério algum, ficando os adolescentes à mercê do arbítrio dos juízes e de fiscais da lei acomodados. É fácil atacar um setor da população sem voz por não ser produtivo. Um candidato consciente, por outro lado, deveria estar pensando em formas de fortalecer o aparato estatal em prol dos adolescentes. 
Eu também não confio em quem propaga, ou ao menos não condena a homofobia. A Constituição diz que todos são iguais perante a lei, e os representantes do povo e das unidades federativas não podem mais fingir que ignoram isso. O tratamento discriminatório a outros seres humanos não pode mais ser permitido, e os políticos que apóiam a discriminação são representantes de setores conservadores e segregadores, cujas idéias já estão mortas em várias partes do mundo, mas insistem em se manter entre os poderosos deste país.
Por enquanto, minha única decisão radical é não votar em quem segrega ao invés de incluir.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Poema inacabado 4



o pássaro engaiolado
quer um canto triste
impregnado de certeza da morte
um canto que resista
à chegada da primavera
que atravesse o mês de setembro
o cruel mês de setembro
que perpassa
como uma faca 
o peito emplumado
quer algo além das grades
dos grãos 
do coração de pássaro

***


São feios mas são meus! Rabiscos de ontem e hoje. O bálsamo que é desenhar em post-it.