Quando ingressei na universidade, a fama de puta* “grudava” nas meninas, com uma rapidez e uma facilidade inacreditáveis. E as outras garotas pouco faziam para evitar que isso acontecesse, quando não ajudavam, elas mesmas, a espalhar a má fama das colegas, que logo se viam em apuros.
Eu mesma tenho minha historinha para contar. O rótulo de puta se adequou à minha figura em um episódio cheio de preconceitos mirabolantes e contou com seus requintes de crueldade. E tudo o que eu fazia era viver minha vidinha mais ou menos. Mas eu não sou especial. Foi assim com outras garotas também. Cada caso teve suas particularidades medonhas.
Por que estou pensando nisso agora? Porque este ano, os Jogos Jurídicos foram em Maringá, e eu resolvi assistir aos jogos de futsal. Minha intenção não resistiu ao segundo jogo, o primeiro ao qual eu assisti.
Assim que a bateria da UEM chegou, eclodiram músicas depreciativas do sexo feminino, tão comuns em outras baterias também.
Eu dizia para mim mesma “é brincadeira... não seja tonta...”. Eu mesma gosto de brincar. Choro de tanto rir com algumas músicas machistas. Mas as paródias cantadas pelas baterias ultrapassam certo limite subjetivo.
Resumindo, acho inconveniente. Simplesmente não encontro maneira de flexibilizar minhas convicções e participar da “brincadeira”, ou melhor, do culto fálico entoado pelos estudantes. Não há nenhuma música do ponto de vista da mulher. Tudo gira em torno do pênis, “o desejado”.
As garotas cantam e rebolam ao som das paródias absurdas. É esse comportamento flexível, e mesmo manso das mulheres que me causa o estranhamento**.
Está bem, é brincadeira, e o exagero faz parte. Mas, por trás da casca de moralidade que encontramos nos corredores da universidade, e por trás dessas brincadeiras sem graça nenhuma, o fundo de verdade, um clichê ainda não superado: puta é a mulher-sujeito, aquela que não se deixa tornar um objeto.
No último degrau da arquibancada, olhei a torcida uma vez, e depois outra. Nenhuma das ditas putas estava lá. Eu estava lá, meu desconforto ocupando duas vezes mais espaço que meu corpo.
Observações:
* não há palavra mais adequada para este uso. Não há qualquer relação, neste texto, com a atividade profissional (sempre bom evitar comentários cretinos sobre "puta" não ser xingamento).
** Sim, eu acho incoerente. Sim, eu acho um absurdo. É simplesmente um desgosto.
A imagem foi feita pelo grupo Don Quijote.
