
Houve um terremoto no Haiti. Aqui no Brasil, de família em família voam as notícias. Os telefones tocam e os pêsames se espalham. Saem as listas de mortos e feridos. Lorena, cidade no interior de São Paulo perdeu quatro militares. Provavelmente, rapazes no auge de suas vidas.
Zilda Arns está morta. Foi atingida por escombros durante o terremoto. E todos aqueles que a conheceram estão com as vozes embargadas. Deixe-me explicar a relação dela com nossa cidade: Zilda Arns, fundadora e coordenadora da Pastoral da Criança e da Pastoral da Pessoa idosa, era tia de uma também pediatra que vive e trabalha aqui em Maringá, Mariane Arns. Todas as vezes que Zilda vinha para cá, era uma festa, e uma honra recebê-la. Eu participei disso algumas vezes. Sim, sempre acabávamos como uns patetas, tentando agradá-la, e ela, que, apesar da grande cultura e elegância, era uma pessoa simples, divertia-se, sempre discreta, com as nossas trapalhadas.
Um dia, Zilda me ouviu comentando com sua sobrinha-neta Rafaela sobre as dificuldades do projeto que a UEM desenvolvia em Sarandi; eu fiquei envergonhada, quando percebi que ela, do corredor prestava atenção, mas ela procurou uma solução, com a simplicidade de sempre: “posso escrever para o Requião, ele gosta muito de resultados”.
Falando mais de Zilda Arns, ela desenvolveu um trabalho maravilhoso, que, por meio da educação das comunidades, de complementos alimentares simples e baratos, porém eficientes – a famosa multimistura – e do trabalho de médicos e voluntários, garantiu a saúde e a vida de milhares de crianças em nosso país e se expandiu para 15 outros. Ultimamente, com a Pastoral da Criança bem estruturada, sua fundadora canalizava suas forças para a Pastoral da Pessoa Idosa. Divirto-me só de pensar que no início da pastoral da criança, quando a médica pediatra Dra. Zilda Arns atendia menos de dez crianças, um repórter disse-lhe que dessa maneira ela não ia salvar o mundo, ao que ela replicou que é assim que se salva o mundo.
As pastorais apresentam programas inteligentes, que, não contendo caráter emergencial, buscam, em seu âmbito de atuação, soluções mais sólidas. No caso da pastoral da Criança, não se trata apenas de fornecer a multimistura e realizar o acompanhamento médico das crianças. Trata-se da educação de mães, famílias e comunidades sobre como manter as crianças saudáveis. Trata-se de uma rede em que todos mantêm contato, motivam-se e se informam mutuamente.
É um trabalho realizado com amor; a única recompensa verdadeira, apesar do farto reconhecimento e premiação, é o bem estar das crianças que tanto necessitam cuidados, carinho, uma boa alimentação, educação...Esta é a melhor recompensa, porque afinal, todos somos um. Não adianta construir ilusões: não ficamos bem quando a humanidade está mutilada. Não é possível ficar bem quando as coisas não transcorrem de maneira harmônica; quando há fome, miséria, destruição, exploração. Todos, de uma maneira ou de outra, somos atingidos. Assim como somos atingidos pela situação calamitosa do Haiti.
E nós ainda temos sorte. Sorte porque por trás dos brasileiros no Haiti há um aparato, e as notícias chegam rápido. Sorte porque as pessoas que conhecemos – militares e voluntários em ação – são um tanto ilustres e suas mortes são noticiadas com precisão. Eu mal consigo imaginar a tristeza daqueles que perderam sua cidade, amigos, vizinhos e parentes. Mal consigo imaginar os corpos sem identificação nas ruas. O Haiti já se encontrava em situação complicada o suficiente antes do terremoto, e não se trata, apenas, de se erguer novamente.
A única coisa boa nessas tragédias é o exercício da solidariedade, a aproximação das pessoas. Brasileiros, jordanianos, chineses e haitianos partilham da mesma tristeza. E os haitianos se fazem até invejáveis, com suas “danças de luto”, porque aqui nós mal sabemos colocar para fora a tristeza que nos abate.
Bom, Zilda Arns, “morreu de modo bonito”, nas palavras do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, seu irmão. Morreu em missão humanitária, tendo cumprido com seu papel, em paz. Ela estava no Haiti desde segunda-feira, apenas. Seu legado é o trabalho, que continuará salvando vidas e contribuindo de maneira concreta e ágil para um mundo melhor. Nossas orações não são apenas por ela, mas pelo povo haitiano, que agora enfrenta mais desastres.
Desculpem pelo texto. O jornalismo não é o propósito aqui. Mas é a única coisa que consigo por para fora hoje.