quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Um show de rock é um show de rock, o SWU é só o SWU.

Então tá, vamos falar do SWU. 


Minha primeira conversa sobre o SWU foi mais ou menos assim.


Raul e eu decidimos ir ao SWU. Com tantas bandas e um preço tão salgado, tivemos que nos concentrar para escolher um dos dias; como o objetivo maior do Raul era o Yo La Tengo, e o meu, os Pixies, e ambos tocariam no último dia, num pacote que também incluía o Queens of the Stone Age, esse foi o dia escolhido.
Fomos de ônibus, em uma excursão em que a maior parte (ou ao menos a parte mais saliente) era uma galerinha metaleira muito jovial, irreverente e maneirinha, leia-se adolescentes insuportáveis, chegamos lá pouco depois do meio-dia, e, incrivelmente, encontramos um amigo de Maringá que hoje mora em Campinas, o Renato. Devidamente inseridos no grupo dele, aguardamos um par de horas para entrar no evento.
Nesse momento, o público foi muito educado; ninguém forçou a entrada apesar da demora injustificável para colocar as pessoas para dentro. Perdemos só a apresentação do Ilo Ferreira.
O evento em si era meio boçal. Aquela conversa marqueteira de sustentabilidade não foi posta em prática nem nas coisas mais simples. O que se via era um desperdício de recursos, por exmplo, tiravam a coca-cola da garrafa e colocavam em um copo plástico, usando duas embalagens ao invés de uma; os alimentos não eram saudáveis, nem produzidos de maneira sustentável, sendo que a organização do evento perdeu a chance de experimentar, inovar mesmo. Havia muito lixo por toda parte.
Também a entrada estava muito cara. Não se podia entrar com comida ou bebidas, e tudo estava muito caro lá dentro. O evento ficou muito elitizado, cheio de uma gente rica e entediada, e isso tira o clima de rock'n roll. Os poucos malucos jogados perto do palco das bandas independentes eram uma exceção. Foi um festival asséptico e capitalizado, onde tudo parecia ser de plástico, com uma estrutura brutal, lojas de camisetas a 70 reais, e uma molecadinha sendo carregada bêbada antes do fim dos shows.
Assistimos à boa apresentação de Alan Johanes, e depois seguimos os boatos até o Mombojó, que tocava no palco das bandas independentes. A voz do povo não mente: o show foi divertido, surpreendente e original! A banda velha de guerra despencada de Recife é demais. 
Depois, fomos a um dos palcos principais aguardar pelo Yo La Tengo. O show foi marcado pelas manifestações mal-educadas dos adolescentes que esperavam o Sevenfolds, que tocaria só duas horas depois (eles estavam "guardando lugar" desde o início da tarde). Eles não deixaram os fãs da banda se aproximarem e ficaram vaiando-na e mostrando o dedo do meio, bem sapequinhas. Quando o Yo La Tengo anunciou a última música, os rebeldezinhos descobriram, estupefatos, que ela não tinha fim. Os adolescentes vaiaram e gritaram, mas a banda prosseguia. Ira Kaplan estourou uma guitarra, levando seu público ao delírio. Não foi preciso interromper a música, levaram outra para ele imediatamente. Ganhando a platéia no cansaço (os malandrinhos ficaram quietos, percebendo que a gritaria só fazia a música se esticar), o Yo La Tengo se despediu deixando a seus correligionários a imagem da guitarra detonada do Ira e um sorriso no rosto. 
Eu estava injuriada com o evento como um todo, mas então algo mudou: ao final do show do Incubus, Raul e eu avançamos até esbarrar...na grade! E o melhor! Olhamos para o lado e vimos todos os nossos amigos (que haviam se perdido) na grade também! Nosso reencontro foi na primeira fila do show dos Pixies!!! Chegamos ao melhor lugar possível devido a nossa falta de dinheiro (os premiuns estavam na nossa frente)! 
Assistimos ao show do Queens of the Stone Age (que foi no palco ao lado) pela tangente, de longe, mas conseguimos vê-los bem, sentir a energia deles, e foi ótimo, eles foram incríveis!
E por fim...os Pixies! Da grade a vista era muito boa, o show foi o máximo, a Kim Deal muito simpática, gargalhando no final. Terminaram o show sem cantar "Where is My Mind?", e, no BIS, prometeram uma última música, e mandaram "Planet of Sound". Em seguida, eles emendaram "Where is my mind?" (nessa parte, eu chorei) e fecharam com "Gigantic". 
Eu achava que continuaria no festival, mas depois dos Pixies, não quis ver mais nada. Raul e eu fomos comer, despedimo-nos dos nossos amigos queridos e fomos para o ônibus, onde eu dormi com "Monkey Gone to Heaven" na cabeça.
Depois de um show do Queens of the Stone Age e outro dos Pixies, meu coração ficou mais leve que minhas penas. Funciona mais ou menos assim: os egípcios acreditavam que, quando alguém morre, o Deus Anúbis coloca o coração sobre o prato de uma balança, deixando uma pena no outro prato. A pessoa só poderia entrar no paraíso se o coração fosse o mais leve. 
Eu lamento muito pelos que se frustraram com o festival, buscando ecologia, política ou Woodstock, mas eu saí de alma lavada: esses capitalistas sabem nos fisgar pelo coração. Eu vi os Pixies, e não me importa mais nada. 
Para sair alegre, é só ter foco no rock!


Buraco de minhoca (Kim Deal no clipe "Little Trouble Girl", do Sonic Youth)

Um comentário:

André Kangussu disse...

Gostei do relato!

Não tô indo a nenhum show de rock esse ano, só vendo um ou outro mané da MPB que vem a Curitiba.

A tirinha é sua, né? A letra é sua, pelo menos.