segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Ocaso

A derrocada da nobreza francesa começa a fazer suas vítimas.




Neste ano da graça de 1322 vivemos muitos infortúnios.  A seca, somada aos prebostes do Senhor de Marigny – que se lançaram sobre a pequena nobreza como aves de rapina – provocaram nossa quase completa ruína. Os recursos se esgotam, e é trágico ver a magreza dos animais, a palhinha caindo das torres do velho solar...
Fúnebre é a visão de nossas despensas, das refeições ralas sobre a mesa de carvalho. Mas como obrigar os servos a entregar a devida porcentagem da produção a senhores despidos de poder, sem influência alguma na corte, sem meios para afrouxar as garras reais que os abatem?
A caça, então, vai muito mal. Os únicos que têm permissão para ir aos bosques e perseguir os animais selvagens são os senhores meus irmãos, e eles, Deus que me perdoe, não tem competência alguma para tanto. Mas não posso culpá-los deliberadamente, afinal, estão tão magros que seria mesmo um milagre se conseguissem trazer boas peças de carne para casa.
Falei em Deus. Ó Senhor, perdoe-me por não mais ir à missa. Mas irei vestida com o que? E mais, irei montada em nosso único pangaré, que mal se aguenta em pé? E magra deste jeito? Não, Senhor, não irei, e não é por minha vontade. É porque minha aparição dissiparia minhas chances restantes – e elas são poucas, meu Deus, o Senhor bem sabe – de arranjar um marido. E só conseguindo um bom casamento hei de me livrar dessa condição miserável.


3 comentários:

JAS disse...

É incrível como você consegue imprimir um tom confessional tão sincero e autêntico aos seus textos, mesmo quando as personagens são de épocas passadas. Eu me senti na frente de uma mulher realmente desesperada com as péssimas condições de vida que a assolam.

Murilo Munoz disse...

mas trabalha pra come ninguem quer né? eu acho tudo um ababaBSURDO. Passa fome de preguiçoso, era isso que eu queria idzer

Nina. disse...

Murilo

Essa sua mentalidade calvinista ainda não existe neste ano da graça de 1322.