domingo, 22 de agosto de 2010

O cinismo

Nada melhor (e mais fácil) do que recorrer à impessoalidade para tratar de uma matéria tão cotidiana...




..."Outro dia, alguém me disse que um cínico é aquele que sabe o valor de tudo e o preço de nada. Sabe o que meu amigo Mecenas respondeu? 'Não é bem assim. O cínico sabe o valor de tudo e sabe que não vale o preço pedido'."
Desagradou-me ouvi-lo [a Otávio Augusto] citar Mecenas, mas não pude discordar de seu julgamento. 
No entanto, Artixes, aqui estou, refém de seu pai, prisioneiro de seu pai, fadado a ser vítima de seu pai, pois ninguém pagará o preço que ele exigirá pela minha libertação. Onde está o cinismo aqui?


Décimo Bruto, como personagem do livro "Cesar", de Alan Massie. Um ótimo livro, para aqueles que gostam do romance histórico.



sábado, 21 de agosto de 2010

O dia em que fui ao Cerco de Jericó

Um dia, em Cascavel, a catequista nos recomendou o cerco de Jericó. Lá pelas tantas, eu, horrorizada, escutei o coro:
- E Jesus virá para acabar com toda a Umbanda...



Levantei e saí.
Chamei a atenção da minha catequista, que veio em minha direção:
- O que foi?
-Levei para o lado pessoal.

Eu sou ibérica, e, como boa ibérica, estou acostumada com a mistura de etnias, e com a riqueza que isto nos traz. O Brasil é um país com forte sincretismo religioso, e eu não gostei de ver esse tratamento dispensado à crença de alguns de meus antepassados (nem tão distantes assim). Fui como curiosa, e estranhei; respeito com as outras crenças deveria ser um ensinamento básico. 
As pessoas imaginam um divindades muito rabugentas e intolerantes, às vezes.






E só mais uma coisa, catequista: Exu está te ouvindo!





segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Poema inacabado 2


traga
e estraga
a imobilidade
do momento
entre tantas traças
teus papéis amados
algemas e mordaças
tuas memórias teus guardados
permanecem quadrados

domingo, 15 de agosto de 2010

Stan Rice em português



Pouca coisa é mais digna de nossa atenção
do que compreender o talento da Substância.
Uma abelha, uma abelha viva, na vidraça,
tentando sair, condenada, sem conseguir entender.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O Ócio

Houve um tempo em que o trabalho não ocupava uma parte tão grande do tempo das pessoas como ocupa hoje. Esse tempo não está tão distante, afinal, no bom séc. XVII as coisas ainda eram mais ou menos assim.
No final da Idade Média e início da Idade Moderna, as pessoas – crianças e adultos – reservavam um tempo muito maior aos jogos, em comparação com os tímidos momentos de divertimento atuais.
Os jogos eram oportunidades para que o indivíduo se integrasse à sociedade. Brincadeiras hoje consideradas infantis eram também o passatempo dos adultos.  Os séculos XV, XVI e XVII deixaram um legado de gravuras que retratam adultos brincando jogos como cabra-cega e esconde-esconde.  Em uma obra, a despeito da sociedade estratificada, camponeses e fidalgos brincam de cabra-cega; em outra, algumas crianças misturadas brincam com os adultos. O esconde-esconde era um divertimento para camponeses, fidalgos e também reis e rainhas.
No entanto, é no calendário do livro de horas de Adelaide de Savoie, datado do final do séc. XV, que se encontra o quadro que me é mais querido: a população de uma aldeia européia enredada em uma guerra de bolas de neve! Na gravura há figuras de crianças, mulheres e homens.
Phillip Ariès aponta a diferença em relação à atualidade ao alegar que, àquela época, o trabalho, na opinião comum, não tinha tanta importância, carecendo do valor existencial que lhe foi agregado a pouco mais de um século.
Interessante, não?
Quando foi que nos perdemos? Eu mal consigo acreditar nisso tudo em dias de semana...

Mas tem gente que sabe se divertir:




Ah... eu também quero!
(minhas bolhas de sabão são tão pequenas...)



segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Poema inacabado 1


o apartamento amanheceu menor
orlando me olhando na janela da frente
oi.
as pessoas lá embaixo são pontos
pontos muito belos, é verdade
deve ser essa síndrome de formigueiro 
que me deixa sem ar
 
que você acha, orlando
do nome que inventei para você?


*Fábio Tremonte - Janela - desenho e colagem - 2005.
*Nina - poema inacabado - 2010.

domingo, 8 de agosto de 2010

os caminhos da dança

Existem muitos problemas relacionados à inclusão de deficientes físicos na dança, e isso é bem fácil de se vislumbrar.
Não é raro o contato com apresentações em que, embora sejam os bailarinos com deficiência física o grande chamariz para o público, eles quedam relegados ao segundo plano, meros coadjuvantes, enquanto bailarinos que não apresentam este tipo de deficiência constituem a matéria humana mais utilizada, mesmo quando mal aparecem no cartaz.
Por outro lado, existem aqueles grupos em que as grandes estrelas são os deficientes físicos, por vezes não havendo, no palco, um único bailarino que não apresente deficiência. O que entristece o público é que, às vezes, o coreógrafo não aproveita o potencial do grupo, resultando em apresentações de pouca qualidade, e isso, a meu ver, não é uma verdadeira inclusão. 
A verdadeira inclusão ocorre quando se exige dos bailarinos tudo o que eles são capazes; afinal, os bailarinos portadores de deficiência física também devem encantar o público, e o trabalho que os envolve deve apresentar uma estética convincente, respeitando sua capacidade e sua dignidade.
Ora, muitos portadores de deficiência vem se mostrando competentes e mesmo competitivos em várias atividades artísticas e esportivas, havendo destaques no atletismo, por exemplo. 
O vídeo que recebi por e-mail é um exemplo de um casal de bailarinos dotados de talento, equilíbrio, leveza e coordenação; características que foram muito bem aproveitadas que por um coreógrafo destemido. Emocionante e maravilhoso pas-de-deux.