sábado, 20 de fevereiro de 2010

Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro...

Desde 2008 o blog do grupo Don Quijote (permitidopermitir) está parado. Não sei se eles foram pegos pela polícia ou se simplesmente cansaram. A segunda hipótese é mais provável, mais realista, mais plausível. Procurei algo sobre eles na internet, mas tudo acaba em 2008.
O grupo gerou o maior bafafá em 2005, São Paulo, por causa de uma série de intervenções em placas de trânsito, buscando um novo sentido. Essa não era a única das maneiras de intervenção urbana que o grupo praticava, mas foi a mais notada e comentada.











Assim, o grupo cria novas permissões - já que ninguém é multado quando a placa está alterada - trazendo a poesia e a discussão social para o ambiente urbano.
A mídia de São Paulo fez a sua parte (sua obrigação) ao trazer para o grande público a oportunidade de melhor visualizar as intervenções e iniciar uma reflexão sobre elas; mas, ao observar uma coletânea de jornais daquele período sobre esse tipo de intervenção, deparamo-nos com certas expressões no mínimo estranhas: "Gangue de adesiveiros", "Vândalos", "criminosos", "Gangue das placas", "responsáveis pelo caos no trânsito de São Paulo", "intervenção irregular" , "onde já atacaram", "novo vandalismo". Essas expressões foram abundantes nas matérias jornalísticas da época, embora parte da população não se queixasse, concebendo os adesivos como uma crítica espirituosa e alegando que relaxavam e se divertiam ao ver as imagens nas placas.
A CET começou a substituir as placas, e cifras astronômicas surgiram nos jornais, intituladas "o prejuízo que essa gangue nos deu". Segundo os mesmos jornais, o grupo sugeriu a venda das placas alteradas.
Eu ainda concordo com alguns críticos do grupo Don Quijote: "isso não devia ter glamourizado..." (riso sem graça). O ângulo da abordagem da imprensa foi, no mínimo, obtuso. Deram importância demais ao grupo, tratando-os como lunáticos - valendo-se de frases como: "os três rapazes e uma garota se dizem 'artistas' " - pouco discutindo o sentido ou o alcance da intervenção. Trataram a situação como um mero "delito continuado", transformando os integrantes do grupo em espécies de figuras míticas, como os "loucos do bairro", por exemplo. A mídia ironizou o trabalho usando o próprio espaço que concedeu ao grupo para se manifestar ou explicar sua obra.
É claro que também existem os conciliadores...aqueles que vão diretamente ao grupo (por seu blog - também uma forma de mídia) elogiando a idéia, mas sugerindo outras formas de intervenção, menos prejudiciais..."vá lá, meninos - destaque para a palavra meninos - coloquem placas falsas ao lado das verdadeiras". Ainda alertaram para o perigo de colecionar detratores. Uma intervenção bem comportada, é o que todos querem...uma intervenção "regular".
Sempre penso no quão gozadas são essas situações..uma intervenção não deve incomodar jamais, deve criticar mantendo a classe, não deve atrapalhar o trânsito, não deve ferir nossos olhos sensíveis, nossa rotina delicada...no que uma placa ao lado da placa verdadeira interviria? Qual a atenção que o cidadão de bem daria para isso?
A intervenção urbana é, em regra, mal recebida; o dano ao patrimônio público é abordado em primeiro plano, roubando os holofotes, e o palco para si, enquanto as coxias e bastidores são ocupadas pelo culto à personalidade dos "delinquentes".
Eu não sugiro o aplauso ao dano pelo dano, mas uma maior atenção ao benefício trazido por esse tipo de manifestação. Não se trata de instaurar o caos ou destruir tudo, mas de reconhecer a importância do indivíduo que questiona a distribuição e organização do espaço urbano em meio a uma sociedade. Afinal, qual o papel de um indivíduo em uma cidade? Há tempos tive contato com acadêmicos argentinos que desenvolviam um trabalho sobre o direito à cidade, e, inclusive, o direito de se manifestar na cidade, até mesmo sob formas como a pichação. É um viés interessante, também. Uma opinião tão válida como a amplamente divulgada por aqui, de que a intervenção urbana se trata de um crime, um "caso de polícia". Tão válida quanto a defendida pelos conciliadores, que defendem a crítica em si, mas pugnam por formas menos agressivas.
E o país luta tanto por liberdade de expressão para enfim dispor de uma mídia em grande parte alarmista. Sim, uma mídia que coloca a sociedade em polvorosa, atentando para os perigos de gangues que adesivam as placas. Não se trata de um problema brasileiro, com certeza. Amigos que moraram nos Estados Unidos já me falaram do constante estado de alarme que a população vive em relação ao oriente. Mas afinal, há um orçamento bélico a ser aprovado.
Sem generalizar, mas alguns jornalistas deveriam honrar as calças que usam...ora, recebem seus salários para taxar os indivíduos e tirar conclusões em nosso lugar?
Quando me deparo com manchetes como esta que está abaixo, penso em duas respostas:

- Muito prazer, meu nome é otário. (da música Dom Quixote, de Humberto Gessinger)
- Quaquaraquaquá...quem riu? Quaquaraquaquá...fui eu. (música "Vou deitar e rolar", de Baden Powell)

...depende do meu estado de espírito.

Obs: poesia, política, boas fotos e a receita da cola lambe-lambe usada nas intervenções? Encoste aqui > http://www.permitidopermitir.blogspot.com/

Obs2: agora que a Elenita saiu do BBB (so last week...), como a Veja vai encher linguiça na parte de artes, cultura e entretenimento?


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Poema de hoje



Na minha van filosofia
tenho dezesseis lugares.
Certezas cheguem cedo,
pois as dúvidas
vêm aos pares.


Kleber Bordinhão


***


A imagem é de uma obra feita no final de 2009 por Aitana Carrasco, para a exposição "Enfrascados", uma iniciativa do grupo mexicano "El Ilustradero". A exposição foi na Feira internacional do Livro de Guadalajara. Aitana recebeu um mote para a realização de sua obra: "Aquello fue creciendo en la maceta, como si realmente fuera una planta". Esse frasco não chegou a ir para a exposição, ela mudou de idéia e mandou outro no lugar.

Links:

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

I



quando você for embora
enlatado e com conservantes
leve seus teoremas
suas respostas prontas
role ladeira abaixo

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O pouco que sei sobre Márcia

Hoje cheguei ao trabalho e vi, acocorada junto à porta, uma mulher fraca e muito magra. Ela tossia. Troquei apenas algumas palavras com ela e entrei, dirigindo-me à sala ao fundo, onde funciona o escritório de advogados.

Na primeira sala junto à entrada, Dora, a psicóloga, começou uma conversa com a mulher, que entrara logo depois de mim. Chamo-a de “mulher” porque ainda não conhecia Márcia. A conversa era mais ou menos assim:

– Você compra duas pedras para fumar em quantas horas, Márcia? – inquiriu Dora.

Fixei-me no nome pronunciado por Dora, e em todas as lembranças que ele me evocava; todas as “Márcias” que já conheci me vieram à mente – um caleidoscópio. Essas “Márcias” todas me trouxeram grande vivência.

– Ah, dá para passar o dia – Márcia respondeu, divertida.

– E quanto você paga?

– Sete reais a pedra.

– Sete reais!? A pedra subiu?

A conversa prosseguiu e as meninas riam das coisas que Márcia dizia. Eu não conseguia ouvir tudo, e nem conseguia rir. O momento era estranhamente leve, mas algo de soturno me ocupava a mente. Eu tentava, em vão, concentrar-me na pessoa de Márcia.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Último dia com 20 anos

Houve um tempo em que eu aguardava que a graça e a feminilidade da idade adulta simplesmente caíssem sobre mim. Foi uma espera em vão. Continuo tão desengonçada e infantil como quando eu era uma pré-adolescente. E isso só tem graça para quem me vê tropeçando na rua.

O balanço geral está aqui. Ainda está em fase de aperfeiçoamento, mas esta é a última oportunidade para este poema.

***

Ira dos meus vinte anos

tenho vinte anos e nenhuma esperança
nem vergonha na cara
minha fúria impotente
derrubada por um ataque de riso
castelo de cartas
no jogo de poker
sou mesmo a última das românticas
com meu cabelo moicano
pichadora saltimbanca iconoclasta
Diadorim Julieta Jocasta
protestos incolores
indolores
não há nada que me baste
***

O desenho é da lupe vasconcellos: http://www.lupevision.com/ >> ilustrações para elevar a taxa de acúcar no sangue.

O curta de hoje, apesar de não ser alegre, também eleva minha taxa de açúcar. Uma fábula infantil, no melhor estilo. A narração não é lá muito boa (eu não gosto de narradores), como também não me agradou muito o pungente moral da história. Mas a animação meio tosca é uma graça, assim como os traços do desenho. Na verdade, como um todo, o curta é uma dessas preciosidades (o ideal seria uma palavra como bibelô ou jóia - como vovó já dizia - mas eu preferia que inventassem um vocábulo que exprimisse "coisafofa+coelhinhos+purpurina+acúcar) que muito me agradou no festival de cinema de Maringá do ano passado.






quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

As fotos da Fernanda

Enquanto não me animo a escrever, aqui estão as fotos tiradas na viagem por minha grande amiga Fernanda. Ela resolveu abandonar a colheita feliz e todos os outros aplicativos do Orkut para atacar de fotógrafa. Seu estilo é bem inconveniente: vai metendo a câmera na nossa cara; e por isso mesmo consegue o melhor - e o pior - de nós. Eu adoro as fotos dela porque ela imprime nas imagens sua própria energia (e essa frase ficou péssima, eu sei...mas é um elogio honesto, Fer).







quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O retorno

Tá...voltei com um pouco de atraso...hehe. Alguns empecilhos e muita preguiça, mas aqui estão algumas das fotos da viagem, enfim. Elas retratam inclusive o dia em que choveu cântaros e nós ficamos perdidos em uma estrada-atoleiro, indo parar em uma ponte pênsil horrorosa e podre (pode-se ver abaixo o Gustavo com seus mais de 100 quilos sobre a ponte).
Bom pessoal, é isso...até a próxima