
Hoje cheguei ao trabalho e vi, acocorada junto à porta, uma mulher fraca e muito magra. Ela tossia. Troquei apenas algumas palavras com ela e entrei, dirigindo-me à sala ao fundo, onde funciona o escritório de advogados.
Na primeira sala junto à entrada, Dora, a psicóloga, começou uma conversa com a mulher, que entrara logo depois de mim. Chamo-a de “mulher” porque ainda não conhecia Márcia. A conversa era mais ou menos assim:
– Você compra duas pedras para fumar em quantas horas, Márcia? – inquiriu Dora.
Fixei-me no nome pronunciado por Dora, e em todas as lembranças que ele me evocava; todas as “Márcias” que já conheci me vieram à mente – um caleidoscópio. Essas “Márcias” todas me trouxeram grande vivência.
– Ah, dá para passar o dia – Márcia respondeu, divertida.
– E quanto você paga?
– Sete reais a pedra.
– Sete reais!? A pedra subiu?
A conversa prosseguiu e as meninas riam das coisas que Márcia dizia. Eu não conseguia ouvir tudo, e nem conseguia rir. O momento era estranhamente leve, mas algo de soturno me ocupava a mente. Eu tentava, em vão, concentrar-me na pessoa de Márcia.